O Jardineiro Fiel

Atitudes éticas

 

"O Jardineiro Fiel" é um filme político, inteligente e emocionalmente poderoso. É um filme tenso, comovente e o mais importante, provoca discussões em função das denuncias que faz a realidade trágica que retrata.

Ao espectador fica nítido e impossível de ignorar o desastre social de um continente cuja população miserável é submetida a todo tipo de abuso: fome, doenças e genocídios promovidos por milícias compostas por psicopatas.

Um quadro ainda mais assustador se revela na medida em que o filme vai desvelando atitudes totalmente não éticas provenientes da exploração sistemática, por parte dos laboratórios farmacêuticos do primeiro mundo, que racionalizam suas ações com a justificativa demagoga de que de uma forma ou de outras as pessoas daquela comunidade morreriam de todo jeito.

O filme deixa evidente que para uma indústria que movimenta bilhões e bilhões de dólares, uma, cem ou cinqüenta mil vidas de nada valem. O que vale para os grandes laboratórios é desenvolver e comercializar uma droga capaz de gerar fortunas incalculáveis, mesmo que o uso dessa droga se converta em malefícios e prejuízos a vida humana.

Infelizmente, em um mundo capitalista como o nosso, em que o dinheiro está acima de todas as coisas, em detrimento da vida, por exemplo, assim como no filme, faz-se bastante comum que medicamentos ainda não totalmente testados circulem no mercado. Para os grandes laboratórios farmacêuticos desenvolver um medicamento é um investimento que significa milhões sendo, dessa forma, mais conveniente manipular as estatísticas de pesquisas laboratoriais do que arriscar gastar outros tantos milhões a fim de corrigir possíveis efeitos indesejados, como é o caso do Celebra, do Bextra, da Talidomida, dentre tantos outros que chegam as farmácias sem terem sido testados, com o rigor necessário, para a sua circulação.

Entretanto, uma questão também muito polêmica apresentada no filme, é a falta de controle adequado na aprovação dos medicamentos. A falta de fiscalização que torna-se ainda mais falha durante os períodos de testes, como descobre a ativista Tessa Quayle, em o Jardineiro Fiel, ao investigar os procedimentos escusos de uma companhia que está testando um remédio contra tuberculose, usando de cobaias os habitantes mais miseráveis do país em um experimento que não apresenta indícios nenhum de segurança, sob o pretexto de ajudar a prevenir a disseminação da AIDS e distribuir gratuitamente medicamentos para seu tratamento no Quênia.

Assim, apaixonada pelo que faz e árdua defensora dos mais fracos Tessa, ao se envolver em causas humanitárias ao lado do médico Arnold, para denunciar as ações da empresa responsável pelos ilícitos testes às autoridades britânicas, torna-se uma pedra de tropeço para autoridades e empresários da indústria farmacêutica sendo, por isso, assassinada de forma trágica e cruel, o que leva a confirmação de que o dinheiro vale mais do que a vida.

Enfim, O Jardineiro Fiel, mostra de maneira cruel o monstruoso contraste entre dois mundos, entre pobreza e riqueza, entre pessoas vivendo entre o esgoto e um verde campo de golfe, lembrando nossas metrópoles. E se não fazemos testes de medicamentos aqui, não ficamos longe da falta de ética quando vemos governantes e suas ações higienistas. Como aqui em São Paulo, por exemplo.

De modo indireto, o filme cerra um dialoga com o Brasil, já que seu tema central é a indústria farmacêutica — que há alguns anos teve seus interesses econômicos desafiados por uma intensa ação diplomática brasileira para liberar as patentes de medicamentos contra a AIDS.

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...NAS ASAS DO CONHECIMENTO.
Renée Vituri, Março/2008

 Vôos

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