Multiplicidades Culturais

RESUMO

 

Multiplicidades Culturais e Representações

e

Sobre o Multiculturalismo

 

SOUZA, Cynthia Pereira de; CATANI, Denice Bárbara; Lugli, Rosário Genta; SILVA, Vivian Batista da. A diversidade e o trabalho escolar: sobre o multiculturalismo. São Paulo: FAFE – Fundação de Apoio à Faculdade de Educação, 2006.

 

SOUZA, Cynthia Pereira de; CATANI, Denice Bárbara; Lugli, Rosário Genta; SILVA, Vivian Batista da. A diversidade e o trabalho escolar: multiplicidades culturais e representações. São Paulo: FAFE – Fundação de Apoio à Faculdade de Educação, 2006.


Comumente a palavra “diverso” remete-nos a um conjunto de elementos que estabelecem por meio da comparação, uma relação entre si, tornando evidente que a diversidade ou as multiplicidades expressam relações e construções culturais.

Questões de diferenças entre brancos e não-brancos, entre homem e mulher, entre este ou aquele, não se tratam de diferenças de caráter individual, não se trata de diversidade, apenas servem de meio para justificar práticas sociais de discriminação e de segregação das grandes divisões que constituem os grupos sociais, que são facilmente identificados pelo aspecto físico, pelo sotaque ou por qualquer outra marca visível que gera a discriminação ou estigma.

A noção de raça, por exemplo, foi utilizada, a partir do século XIX, para justificar a submissão das pessoas não-brancas. Por suas características biológicas os não-brancos, eram considerados primitivos e menos civilizados. Entretanto, não há justificativa biológica que sustente a idéia de que existem diferentes raças na espécie humana, o que existem são traços característicos, tanto físicos como culturais, que são comuns a esses grupos, o que é chamado de etnia. E as questões vinculadas à raça e à etnia estão estreitamente ligadas a relações de poder estabelecidas social e historicamente. Cabe dizer que a noção de raça foi utilizada durante muito tempo como um elemento “naturalizador” da discriminação e da opressão.

A sociedade parece ainda ter grandes dificuldades em reconhecer que a diversidade não se trata de questões relacionadas ao gênero, a sexualidade, a etnia, a cultura, dentre outras características de ordem coletiva e comum a um determinado número de pessoas que constituem a identidade dos grupos.

A diversidade trata de questões individuais, de histórias de vidas, de modos de ser, de pensar e de agir característico de cada ser humano, de práticas cotidianas que implicam em apropriação individual de uma herança de costumes, de valores e conhecimentos familiares, gerada na relação com os outros, com o ambiente, em condições históricas e sociais que permitem e condicionam o surgimento e a transformação de identidades, ou seja, gerada dentro de um contexto que se modificada a cada instante e cada vez mais rapidamente, independente da cor, do sexo ou da classe social.

Para a escola, essa dinâmica presente na constituição das identidades sociais, por um lado, representa a possibilidade de criação de espaços para o desenvolvimento de projetos que permitem a construção de novas identidades e de novos modos de lidar com ela. Mas, por outro lado, a realização desse projeto é uma realidade complexa, pois envolve a interação entre diferentes culturas. Culturas estas, que não existem independentemente uma da outra e que se influenciam recipocramente, tornando evidente a concepção de que não existem culturas ou identidades imutáveis.

O grande problema das influências existentes entre as diferentes culturas é a imposição de padrões alheios à afirmação das várias culturas de que se constitui a nação.

Padrões culturais que não correspondem aos ditados pelos cânones da cultura ocidental hegemônica, que funcionam apenas como instrumentos geradores de exclusão, impedidores de participação em atividades comuns e castradores do sentimento de ser e de pertencer a uma sociedade, a uma comunidade, reafirmando desta forma a suposta superioridade da cultura erudita, estreitamente associada a um determinado grupo social.

Entretanto, esses padrões ditos desejáveis são apenas representações socialmente construídas, por determinada classe social, de como as coisas ou as pessoas devem. Mas, na realidade, existem inúmeras representações e todas devem ser consideradas de igual forma e em igual proporção e, para isso, faz-se primordial que nos livremos da idéia de cultura superior versus cultura inferior, somente assim será possível permitir que o homem celebre a sua individualidade, a sua identidade, a sua própria condição de humano.

Infelizmente, a instituição escolar ainda não reconhece que grande parte da população não se enquadra nos parâmetros determinados por uma concepção universalista de cultura e com isso, acaba se tornando um poderoso meio reforçador da falsa idéia de que há cultura superior e cultura inferior ou de que determinada cultura é inadequada e inaceitável. Ao contrário, todas as culturas têm valor e podem contribuir para enriquecer o processo de construção de conhecimento.

Nos currículos escolares, prevalece o caráter monocultural da educação universalista que pressupõe que todos compartilham igualmente de uma mesma cultura. Assim, por meio de uma ação homogeneizadora a educação escolar, com freqüência, ignora ou cala as diferenças culturais e reforça as desigualdades sociais. Entretanto, cabe frisar que estas condições de inferiorização não decorrem de uma suposta falta de sensibilidade, mas sim, trata-se de uma herança que a instituição escola carrega no bojo de seu currículo e de sua organização, que é preciso identificar para poder alterar.

Importante ressaltar que até meados dos nos de 1970, a escravidão no Brasil era justificada nos livros didáticos de História como decorrência da “preguiça” dos índios e da “força bruta” dos negros, o que reduzia o conjunto de circunstâncias e de condições históricas, sociais, culturais, políticas e econômicas, a mera característica natural e imutável das raças, desconsiderando a cultura, a identidade do outro, do dito e considerado “diferente”.

Assim como a instituição escola, as políticas educacionais também ainda não se mostraram eficazes no que se refere a implementar uma educação escolar voltada para a diversidade cultural e social e os menos favorecidos não conseguem adaptar-se à escola, já que nela seus valores e saberes não são aceitos nem validados.

As multiplicidades nos debates educacionais limitam-se a possibilidade de diálogo entre culturas, nas quais as características próprias de cada uma sejam respeitadas e a igualdade entre os sujeitos seja construída e norteia as ações e relações. Entretanto, quando se trata de multiplicidades, deve-se ter em mente um conjunto de relações sociais e historicamente estabelecidas que ultrapassem a transmissão de conteúdos escolares, que envolvam diferentes modos de conceber a realidade, cultivando maneiras respeitosas de se relacionar com o outro. Faz- fundamental que a educação não seja vista apenas como transmissão de informações de um indivíduo para outro, mas como uma construção de processos em que os diferentes sujeitos desenvolvem relações de reciprocidade, tanto conflituais como cooperativas.

Trata-se, portanto, de reinventar o cotidiano escolar, o que pode ser feito com o uso de diferentes linguagens como: artes plásticas, música, cinema e literatura, oportunidades ímpares na compreensão da dinâmica e do verdadeiro sentido das multiplicidades culturais, pois são trabalhos que possibilitam a capacidade de reflexão e de expressão, tanto de professores como de alunos.

Se trabalhada, neste sentido, a educação volta-se para a humanização e contribui com a construção de uma sociedade que assegura direitos sociais, políticos, econômicos e culturais a todas e todas e garante ações que rompam com as tradicionais e arraigadas práticas de exclusão.

Neste sentido, a “formação de professores em perspectivas multiculturais devem valorizar as referências e experiências dos docentes, a partir das quais venham a ser realizadas leituras e construídos projetos pedagógicos” (2005, p.20).

Pensar a formação de professores em uma perspectiva multicultural é um importante passo em direção ao rompimento da idéia de homogeneidade do ensino e torna-se imprescindível para que se consiga compreender que: o cotidiano dos alunos e das alunas, bem como as suas culturas de origens, os seus jeitos de ser, de pensar, de agir, ou seja, as suas peculiaridades, as diversidades, podem ser um importante instrumento orientador de práticas pedagógicas que verdadeiramente atendam aos interesses diversos dos diversos indivíduos que freqüentam a escola, transformando a educação em um eficaz instrumento capaz de propiciar a alunos/as de grupos populares a possibilidade de resgatarem a dignidade e lutarem por melhores condições de vida.

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...NAS ASAS DO CONHECIMENTO.
Renée Vituri, Março/2008

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